Arquivo: A.I.P.

Em Agosto iniciei uma colecta de sonhos e pesadelos relacionados com a(s) actividade(s) exercida(s). A informação que vem do subconsciente reflecte aspectos do indivíduo, mas também do colectivo. Diferentes pessoas têm, recorrentemente, os mesmos sonhos (ou os mesmos medos), aparentemente infundados. Dedicamos uma grande parte do nosso tempo à actividade que desenvolvemos e é através desta que estabelecemos relações que vão moldando a nossa forma de ser. Muitos estão também sujeitos a uma grande pressão, que se manifesta em ansiedade. Por vezes, é ainda onde contactamos com as realidades mais duras da sociedade e onde exercemos empatia. Ou pode ser onde realizamos sonhos e perspectivamos futuros melhores. Raramente partilhamos o que sonhamos. O que acontece numa relação quando partilhamos com o outro algo tão íntimo quanto misterioso? Partilharias alguns dos teus sonhos ou pesadelos comigo? Podes fazê-lo através do servidor de Discord (preferencialmente) ou por e-mail para info@teresasantos.pt. O material fornecido poderá vir a ser matéria anónima para o corpo e o movimento em Ateia.

Alguns dos maus sonhos associados à minha principal actividade —a dança, misturam-se com medos e ansiedades da infância (já que a iniciei aos 5 anos) e ainda hoje são recorrentes, ainda que pouco frequentes. Têm que ver sobretudo com o medo de falhar: não estar pronta a tempo para ir para palco, ter que substituir alguém sem saber ou sem me lembrar da coreografia. Talvez o pesadelo em que, numa situação de aflição, consigo correr mas não consigo gritar esteja, também, relacionado de alguma forma —um corpo capaz à procura de voz. Em 2008 sonhava cada semana que havia uma ou várias serpentes que me perseguiam com o objectivo de morder o meu tornozelo (curiosamente, um dos meus pontos fracos ao nível físico); eu fugia e no momento em que me mordia acordava agitada e dorida no ponto da picada, como se a dor fosse real. Coincidiu nesse ano trabalhar como intérprete numa cavalgata que tinha por nome El despertar de la serpiente. Os sonhos ainda continuaram, penso que até ao ano seguinte, até que um dia, em pleno sonho, tive o discernimento de parar e perguntar à serpente: o que é que ainda estás aqui a fazer? Desaparece! A partir dessa experiência deixei de ter estes pesadelos, às vezes ainda aparecem vestígios, mas as serpentes desses sonhos são inofensivas, apenas estão lá. Estes são os maus sonhos. O sonho bom (e dos melhores até ao momento) é aquele em que sonho que estou a fazer piruetas que, ao contrário da vida real, não acabam. O equilíbrio e a postura são perfeitas, nem o chão nem o ar oferecem qualquer tipo de resistência e a sensação de suspensão é de uma leveza que me dá um prazer imenso. Giro até acordar. Num outro sonho, desta vez pontual, sonhei conseguia saltar muito e um professor me dizia que a minha data de nascimento era o dia 15 de Abril. Eu dizia-lhe que não, não era, e ele reforçava que sim, que era. A verdade é que nunca mais me esqueci dessa data. Gosto de me lembrar daquilo que sonho, mas não faço grandes interpretações nem escrevo um diário de bons e maus sonhos (como já fiz no passado). Gosto simplesmente de acordar com eles, com as histórias que me contam através de personagens que, muitas vezes, me são familiares. Isso diverte-me.

Hoje em dia alimento um caderno de colagens ao qual chamo eu vírgula estou aqui. É uma outra forma de cultivar criatividade e reflexão através de um processo que envolve o subconsciente e que procura uma comunicação com sentido e a expressão de uma voz. É como se fosse um exercício para perceber de onde vêm as ideias. Aqui podes ver as imagens de algumas dessas colagens que, a maior parte das vezes, são muito simples.

Galeria em constante actualização.

Esta é uma série fotográfica que iniciei em Agosto e que estará inacabada enquanto durar o processo de Ateia. Habituada a estabelecer relações entre o corpo e objectos, em contexto de performance, esta experiência resulta numa nova perspectiva desta mesma relação que se manifesta, agora, de uma outra forma. Alguns dos objectos evocam movimentos. Eu apenas observo e disparo. Enquadro o seu lugar no mundo; não os levo comigo para cena. Não há nada de violento em fotografar objectos; não reagem de forma inesperada, ainda que às vezes revelem surpresas. E têm todo o tempo do mundo.

Objectos que sobrevivem ao tempo parte da observação de objectos que perduram e que, como consequência desse acto de resistência, apresentam vestígios, mais ou menos visíveis, que denunciam a passagem do tempo. No seu porte há algo de dignidade, qualidade intrinsecamente humana que vem de dentro e não é concedida nem retirada por ninguém. A verticalidade, presente nestas imagens, está, de alguma forma, associada à dignidade e ao tempo, que insiste em vergar os corpos até que estes cedam à gravidade. Além da dignidade inerente aos objectos, está também a dignidade da sua função ou utilidade nos nossos dias. Descontextualização, dessaturação e minimalismo como principais compositores desta ode aos objetos que propõe uma mudança de foco do humano para outros corpos que habitam o nosso imaginário colectivo, de forma a serem notados e cuidadosamente observados.

Galeria em constante actualização.

A palavra experiência aparece como uma palavra chave que remete para o presente e a acção, mas também para algo que acontece sem que possamos controlar. A experiência tem ainda um carácter subjectivo e transformador que me pressupõe um estado de abertura que me permita ser atravessada por algo. Como performers, é quando nos abrimos à possibilidade de viver plenamente uma experiência, que permitimos que os outros a possam viver também através de nós.

Em pesquisas relacionadas com esta palavra, encontrei o texto Sobre la experiencia de Jorge Larrosa. Deixo em baixo uns excertos, mas podem ler o texto integral, publicado no site Praticas de subjetivación. Nele, Larrosa aborda aqueles que afirma poderem ser considerados os “princípios da experiência”: exterioridade, alteridade e alienação; subjetividade, reflexividade e transformação; singularidade, irrepetibilidade e pluralidade; passagem e paixão; incerteza e liberdade; finitude, corpo e vida.
Se a experiência é “o que acontece comigo”, quer dizer que supõe, em primeiro lugar, um acontecimento ou, noutras palavras, a passagem de algo que não sou eu. E “algo que não sou eu” também significa algo que não depende de mim, que não é uma projecção de mim mesmo.
A experiência é um movimento de ida e volta. Um movimento de ida porque a experiência supõe um movimento de exteriorização, uma saída de mim mesmo, um movimento que vai ao encontro do que está a acontecer, ao encontro do acontecimento. E um movimento de volta porque a experiência supõe que o acontecimento me afecta, que tem efeitos em mim, no que sou, no que penso, no que sinto, no que sei, no que quero, etc.
O lugar da experiência é o sujeito ou, noutras palavras, a experiência é sempre subjectiva. Mas um sujeito que é capaz de deixar que algo lhe aconteça, ou seja, que algo lhe aconteça nas suas palavras, nas suas ideias, nos seus sentimentos. É, portanto, um sujeito aberto, sensível, vulnerável, exposto. Não existe experiência em geral, não existe a experiência de ninguém, a experiência é sempre a experiência de alguém. Esse sujeito sensível, vulnerável e exposto é um sujeito aberto à sua própria transformação.
A experiência sempre tem alguma incerteza. A incerteza constitui-a. Porque a abertura que a experiência dá é a abertura do possível, mas também do impossível, do surpreendente, do que não pode ser. A experiência é um talvez. Ou seja, a experiência é livre, é o lugar da liberdade.
A experiência soa a finitude. Ou seja, a um tempo e um espaço particular, limitado, finito. Também soa a corpo, isto é, sensibilidade, toque e pele, voz e audição, olhar, paladar e olfacto, prazer e sofrimento, carícia e ferida, mortalidade. E soa, acima de tudo, a vida, a uma vida que não é outra coisa que não o seu próprio viver, a uma vida que não tem outra essência senão a sua própria existência finita, corporal, de carne e osso.

Nos últimos meses li, escrevi e fotografei mais do que dancei. Mas o tempo da não dança é tão importante como o tempo da dança. Como para Dulce Maria Cardoso o tempo da não escrita é tão importante como o tempo da escrita. Kafka terá escrito que um livro deve ser como uma picareta de gelo que rompa o mar congelado que temos dentro. É por este momento que continuo a dançar. É tempo de voltar ao corpo, com toda a sua sombra e potência, e sublimar a realidade. É hora de voltar onde tudo começa.
Nas próximas entradas começarei a publicar as experiências – EXP.realizadas.

Se quiseres partilhar algum pensamento, comentar ou levantar questões relacionadas com este projecto, podes fazê-lo no Servidor de Discord de Ateia in Progress, onde podemos comunicar de uma forma directa em Português, Inglês, Catalão ou Castelhano.

A fotografia é um meio de questionar o mundo e, ao mesmo tempo, de questionar-se a si mesmo.

Fotografar é, na verdade, uma necessidade de solidão atrelada a uma necessidade de não se isolar.

Henri Cartier-Bresson in Ver é um todo: Entrevistas e Conversas 1951 – 1998

Em 2010, durante a formação em dança em Veneza, a imagem adquiriu um papel relevante na minha visão artística. Desde lá tenho feito multimédia para artistas, em parceria com o Dídac Gilabert, e dedico-me à fotografia de rua e fotografia documental. Em 2017 participei no workshop On the Road com Nikos Economopoulos / Magnum Photos e fundei Grito Imagens, onde exponho o meu olhar pessoal.

A educação do olhar foi feita essencialmente através da prática. Documentários, entrevistas, livros e exposições são também fundamentais para fruir, questionar e reflectir. Observar o trabalho de outros fotógrafos e perceber os seus processos, é uma das formas de ir percebendo o próprio processo. Sair à rua com a câmera e improvisar compondo o caos é uma das melhores sensações para mim. Uma fotografia pode atribuir significado a momentos que, possivelmente, de outra forma não seriam notados, ou pelo menos não desde o ponto de vista do fotógrafo. Capto aquilo que me surpreende ou algo simples que quero evidenciar. Enquadro pessoas num lugar e num tempo, envoltas de uma atmosfera. Fotografar é enraizar e aprender a abrir mão do controle. Pau Casals dizia que a técnica mais perfeita é a que não se vê. Uma vez dominada a técnica e conquistado um nível de automatismo no conhecimento do instrumento que temos em mãos, tanto a técnica como a câmera deixam de ser o mais importante no processo de fotografar. São pessoas que fazem que uma fotografia seja atemporal, com toda a sua bagagem, a forma como vêem e como sentem revela-se em composição, ideias, tonalidades, formas, etc. As boas fotografias são aquelas que não nos cansamos nunca de ver. Aprender a ler uma imagem é uma questão de literacia, nos dias que correm.

Links a documentários e entrevistas que fui encontrando: Contacts: Photographer’s Secrets, Koudelka: Shooting Holy Land, The Genius of Photography, Detrás del instante, Fotografia Portuguesa, Conversas à Volta da Luz, Entre Imagens.

A fotografia também tem estado lado a lado com o meu processo criativo em dança. Em 2016 criei Erm, inspirada pela vida e obra de Sebastião Salgado, depois de ver o documentário O Sal da Terra. Durante o processo tive a oportunidade de ver a sua exposição Genesis em Lleida. Antes, em 2013, o tema do espectáculo uma forma quase cilíndrica surgiu a partir da imagem de uma mulher a transportar água em África.

Algumas questões que me têm surgido no contexto deste projecto: de que forma pode a observação quotidiana intervir na improvisação e composição em dança? Como é que uma fotografia pode contar algo sobre uma personagem para além do seu reflexo na câmera? De que forma a repetição pode estar presente nas imagens e o que é que esta figura de estilo sugere ao espectador?

Sempre tive curiosidade em perceber como me podia retratar através da câmera.

© Teresa Santos

A par desta curiosidade, desenvolvi, para este projecto, uma inquietude: dar uma nova vida aos objectos, através do olhar. Mais à frente farei uma publicação dedicada à série fotográfica Objectos que sobrevivem ao tempo. Esta série é uma ode aos objectos quotidianos que nos acompanham e resistem às coisas mais incríveis, como o passar do tempo. Alguns objectos, pela sua matéria e desenho, são fiáveis ao ponto de deixarmos que deles dependam as nossas vidas. Outros têm formas que apelam ao jogo e nos divertem. Outros mudam a nossa vida para sempre.

Partilhar pesquisas em vídeo é algo que tem despertado o meu interesse; não apenas por uma questão de visibilidade, mas sobretudo como motivação para a concretização de propostas através de um formato artístico acessível e aberto ao público. Em 2019, iniciei o projecto 59s no qual me proponho a compor pequenas frases independentes, gravá-las e editá-las. Optei por repetir cada frase duas vezes mantendo a câmera fixa, mudando apenas o zoom. No momento da edição seleciono a melhor perspectiva para cada momento, mantendo uma certa linearidade que se traduz em dramaturgia. A alternância de planos —geral e primeiro plano— é a principal responsável pela impressão de dinâmica nestes vídeos.
Após este projecto, decidi gravar com o telemóvel o documentário 59d. Registei algumas das minhas experiências durante o período de 59 dias, com início a 24 de Dezembro de 2019. No link podem encontrar o texto onde descrevo o processo.

Performance e vídeo são, para mim, dois meios válidos de comunicação e, com a prática, sinto-me tão confortável atrás como à frente da câmera, apesar das limitações inerentes a gravar-me e editar-me a mim mesma. Este projecto terá certamente uma forte componente de corpo e de audiovisual. Numa fase inicial de pesquisa proponho-me a dirigir, interpretar, filmar e editar. A relação com a câmera e as estratégias a adoptar aquando a filmagem e a edição, são os principais tópicos a considerar em cada pesquisa. O objectivo é que cada um destes blocos —ou micro cenas— tenha um interesse que vá além do registo.

Estas micro cenas para vídeo partem da procura de um outro espaço e uma outra dimensão onde existir. Uma narradora desdobra-se em diferentes personagens, num exercício de empatia. Inserida num ambiente entre a paisagem natural e a mão humana, dá corpo a todos os que a habitam. Faróis afectivos, como palavras e sons, conduzem improvisações que se desenlaçam em tempo real com diferentes texturas e luminosidades, sem que necessariamente haja uma resolução. Das palavras que se transformam em dança resultam novas palavras. Ocupação, apropriação e contaminação. Quanto mostrar e quanto sugerir?

O conteúdo audiovisual estará primeiro disponível no Patreon, para os patronos que apoiam o projecto, estando, mais tarde, também disponível aqui. Ao apoiarem, estão a contribuir para uma colaboração futura com um artista audiovisual.

Literatura, como dança, é imaginação. Existe uma relação íntima entre estas duas formas de comunicação: há quem dance porque não tem palavras e quem escreva porque não dança. O corpo ocupa um lugar na literatura. Gonçalo M. Tavares afirma que, para si, escrever é um verbo físico como andar e saltar. Para Maria Teresa Horta escrever é algo erótico. A palavra escrita, como o gesto, não quebra o silêncio, mesmo que contenha em si um grito capaz de transformação. Silêncio como o espaço mental necessário para a imaginação.

corpo—espaço—silêncio—palavra
palavra—silêncio—espaço—corpo

© Teresa Santos

Recentemente li João Tordo —Trilogia dos Lugares Sem Nome— e Valter Hugo Mãe —O filho de mil homens. Tem sido vital para mim lê-los e parece-me fundamental este exercício de humanidade. No texto literário encontra-se reflectida a profundidade e densidade da experiência humana —e denso não é necessariamente sinónimo de triste, pode haver a maior das densidades na mais bela das coisas. Gosto das palavras e das frases que compõe quando combinadas. E das ideias, e das metáforas, e das descrições, e do detalhe, e do sensível, e do subtil…

Para além da densidade e da profundidade, pergunto-me que papel podem ter também a gramática, as figuras de linguagem e a retórica na improvisação e composição em dança.

Tenho uma relação com as palavras desde que me lembro. Ler é uma forma de ter acesso a outros mundos interiores que, ainda que ficcionados, têm verdade e, assim, a capacidade de provocar empatia. O mesmo motor que me leva a ler é o mesmo que me leva a escrever. Escrevo numa tentativa constante de entender o mundo por palavras minhas. Preciso de colocar as palavras ao serviço do sentimento. Escrevo sobre projectos nos quais participei como intérprete ou espectadora, para projectos meus —Fase dispersa e Cordel—, contos, poemas cantados e micro narrativas que orbitam o meu pensamento. Recentemente, escrevi estas frases que, de alguma forma, me remontam para o universo de Ateia:

O que fazer com as histórias das pessoas que já cá não estão e cujas vidas ficaram suspensas?
Quero sentir a vida a correr-me nos gestos e desejo o mesmo para ti.

A minha perspectiva prende-se com a relação entre a literatura e a dança, sendo a principal matéria a voz do corpo. O que faço não é literatura. Escrevo sem essa pretensão, mas com a mesma minúcia e afã daqueles que a ambicionam. Continuo a ler, sobretudo, porque existe quem tão bem o faça (e porque me faz tão bem). Na procura de palavras que dêem corpo à narradora, deparei-me com O relato desconhecido, uma sucessão de textos em modo de autoficção, que escrevo com o intuito de traçar um perfil psicológico e de acção da personagem. O futuro deste relato e o contexto em que as palavras se manifestarão, é ainda uma incógnita. Começa assim:

Estava a pensar, a seguir um qualquer fio que perdi. Foi assim que apareceram as primeiras palavras deste relato que se desconhece.

Poucos dias antes da publicação desta entrada, ouvi a poeta, escritora e editora Maria do Rosário Pedreira no podcast A Beleza das Pequenas Coisas. Uma boa coincidência e um bom estímulo para a reflexão. Para quem não ouviu esta entrevista e tem curiosidade em conhecer a sua perspectiva sobre este tema, deixo aqui o link. Também recomendo a série documental Herdeiros de Saramago da autoria de Carlos Vaz Marques e com realização de Graça Castanheira.

A tarefa dos bailarinos é encontrar maneiras de fazer a interioridade do corpo, a confusão entre órgãos, sentimentos e afetos, ser plena projeção no espaço, plena exterioridade desde dentro.

José Gil

Aos cinco anos comecei a aprender a falar com o corpo. Primeiro faz-se sem saber muito bem o que se está a fazer, também se faz a brincar, imita-se (imita-se muito), observa-se o próprio corpo no espelho e os corpos dos outros, associa-se o movimento a um ritmo, ideia ou emoção e, sobretudo, confia-se; confia-se que talvez um dia se seja capaz. Mais importante ainda, às vezes, do nada, o corpo mexe-se por vontade própria e, se não for censurado, fala e quer ser escutado. É mais tarde que se decide em consciência o que partilhar com os outros, com base numa ética e numa estética que se traduzem numa visão.

Há uns dias, ouvi uma entrevista a Kae Tempest no podcast What I Love onde, entre outras coisas, abordam temas relacionados com a performance. Falam da pressão que vem associada à oportunidade, assim como o sentimento de serviço. Referem a importância de abrir e criar espaço para encontrar em cada apresentação novos significados. Quanto ao intérprete, entendem que não deve tomar a responsabilidade pela vivência do público, o seu papel consiste, sobretudo, em estar verdadeiramente presente na experiência. Para Kae, originalidade tem que ver com intenção e integridade, e actuar não é expor, é oferecer. Questionam ainda se um poema que nunca foi lido por ninguém é, sequer, um poema. Recomendam não recuperar algo que não funcionou no passado, por medo do vazio que, por vezes, antecede o novo. A importância de continuar. Continuar para começar.

Os objectos têm sido uma constante no desenvolver da minha linguagem, tanto nos meus trabalhos como em colaborações. Desde objectos quotidianos e funcionais —cantis e partes de um piano, a objectos de malabarismo —bolas e diábolos. Relaciono-me com os objectos desde uma perspectiva da dança e interessa-me o seu potencial imagético. Acrescentam camadas e, talvez pelo concreto, permitem-nos chegar a lugares onde, de outra forma, não seria possível. Na minha experiência, este potencial manifesta-se na relação com o corpo. Não sendo a manipulação de objectos o ponto de partida para este projecto, levanto algumas questões. O que há fora de mim quando estes não estão presentes? Com que faz fronteira o corpo? Com que estabelece relação? Que limitações/premissas encontro que sirvam de motor de pesquisa do movimento? É verdadeiramente possível o solo?

Proponho-me chegar a conclusões sobre a dança através da própria dança. Nesse momento não estou sozinha. Às vezes, bastam a música e a intenção certas.

Existe no ser humano uma intenção de aproximação. Talvez esse seja o principal propósito. A vontade de sair do indivíduo passa, paradoxalmente, por mergulhar dentro, arrancar a matéria a relacionar com a matéria do mundo, para depois fazer o possível com ambas. Sem nunca me ter especializado em nada, aprendi a viver sem ser uma só coisa —no fim, tudo são extensões de uma mesma vontade. O meu percurso tem sido definido, em grande parte, por pessoas que me inspiram e que acabam por moldar caminhos. Apesar de todas as dificuldades, há uma grande alegria neste modo frágil de viver.

Enquanto lia o manual de João Tordo, e sempre fazendo um paralelismo entre dança e literatura, cheguei a uma definição do que faço no contexto deste projecto: dança entre a literatura e o audiovisual ou dança-relato.

Ao passo que o audiovisual impõe a experiência subjectiva ao mostrar tudo sobre essa experiência, a literatura meramente a sugere.

A literatura, por sua vez, é um voo a partir da página onde estão impressas as palavras. Não carece de alta definição, som, cores, montagem, actores, guião ou realizador. A literatura é ela própria, sem espaço definido; é feita de linguagem, imaginação e tempo, do corpo e da alma do escritor.

O nome do projecto apareceu no conto Marido de Lídia Jorge, umas das leituras que fiz depois de ouvir a escritora na rádio. No final do texto, a palavra começou a saltar na página, ganhando cada vez mais relevância. Ateia, de atear, ou um estado de espírito arrebatador de onde surge o movimento e a pausa. Ateia, do feminino de ateu, ou a responsabilidade de encontrar um sentido para o corpo na companhia e inspiração daqueles que antes de si fizeram.

Da reflexão provocada pelos faróis iniciais, destaquei alguns pontos. Talvez o principal seja a ideia de uma força individual que apenas existe em relação com um colectivo ou com a consciência deste colectivo teia; é uma que são muitos. Da literatura, surgiu a vontade de trabalhar a partir de uma personagem, possivelmente uma narradora omnisciente.

A par deste levantamento, começaram a surgir algumas questões: Ateia é apenas um projecto de dança? É apenas um espectáculo? É um espectáculo? Onde tem lugar? Com que equipa artística? Com que apoios? Que inputs podem contribuir para a construção da personagem? Segundo João Tordo, se a tua prosa for verdadeira, nunca precisarás de dizer porquê. Apenas Quem, Como, Onde, Quando. Algumas da questões levantadas ainda estou a tentar responder. Para mim esta é uma das melhores partes do processo, quando ainda pode ser tudo mas a direcção já se vai desenhando. De momento opto por deixar em aberto o ou os formatos em que o projecto se pode vir a concretizar.

Nesta fase inicial de definição, escrevi uma sinopse breve:

Testemunha do mundo, reivindico o meu poder emancipatório e a reinvenção da dignidade humana.
A partir da perspectiva de uma narradora observadora, percorrem-se alguns dos vales interiores inerentes à existência, esses lugares profundos e difíceis de si mesmo que podem iluminar faróis no espectador, pela semelhança. Uma dança necessária, quiçá inútil, provoca o movimento e dá voz ao corpo que são corpos; os que já passaram e os que estão por vir. Esta dança subversiva, intensa e precisa, brota da observação da experiência humana, ou da forma que esta experiência ressoa no indivíduo. Toda a dança está a favor da vida e nenhuma dança é triste. Imperfeição, sensibilidade e rigor estético como caminhos possíveis.
À base da repetição, gestos e objectos convertem-se em símbolos afectivos. O subtexto, composto por estes símbolos, reveste de densidade as camadas mais superficiais. A realidade apresenta-se sem mistérios ou transcendência. A dança abraça verdade e beleza, em busca de uma ordem interior face à desordem continuada da vida. A transformação do quotidiano em beleza ou sentido. A verdade, ou o que é verdadeiro como aquilo que é mais necessário do que se fosse real.
Este projecto serve-se da literatura e da poesia, sobretudo dos seus modos de fazer, encontrando inspiração nos escritores: Lídia Jorge, João Tordo e Joan Margarit, entre outros. Algumas das palavras acima são suas, fiz o que se faz com as ideias: absorvi-as, tomei-as emprestadas e reorganizei-as para dar vida a este corpo.

Existiram dois momentos cruciais no início deste projecto: o momento em que o comecei a idealizar e o momento em que decidi partilhar o processo de forma digital.

O primeiro início aconteceu nos primeiros dias de Julho de 2020, quando acabava um processo de criação como intérprete. O encerrar desse processo devolveu-me um novo espaço mental; as minhas antenas voltaram a desviar a atenção par a o que se passava dentro e o que me chegava de fora, desde uma perspectiva de direcção (diferente da perspectiva de intérprete). Quem sou eu agora, como vejo o mundo e o que quero partilhar? A estas questões acrescentei todas as limitações, dúvidas, inseguranças e incertezas relativas à situação actual de pandemia que todos estávamos já a viver.

Num destes dias de Julho, a caminho dos ensaios, ouvi na Antena 2 Os Fantasmas de Luísa Todi, produção de estreia da Companhia de Ópera de Setúbal com direcção artística de Jorge Salgueiro. As diferentes vozes entravam, evocavam nomes e retiravam-se. À base da repetição e da acumulação de camadas (voz e instrumental), criavam uma densidade crescente na qual me ia afundando sem conseguir nem querer sair. Fiquei em lágrimas. Como se, naquele momento, aquelas memórias evocadas na forma de nomes também fizessem parte de mim. Esta experiência despertou a minha imaginação.

Num outro destes dias dos princípios ouvi, também na rádio, uma crónica de Em Todos os Sentidos de Lídia Jorge. Apaixonei-me por algo da sua escrita que tem que ver com o humano e, talvez, com um certo revivalismo de infância. A sinopse do livro que compila as crónicas é bastante elucidativa.

Em Todos os Sentidos, conjunto de quarenta e uma crónicas que Lídia Jorge leu, ao longo de um ano, aos microfones da Rádio Pública, Antena 2, corresponde a essa definição – são crónicas que encaram de frente a fúria do mundo contemporâneo, interpretando os seus desafios, perigos e simulacros com um olhar crítico acutilante. Mas a singularidade destas páginas de intervenção provém, sobretudo, do facto de a autora ser capaz de juntar no mesmo palco da reflexão o pensamento crítico sobre a realidade e o discurso subjectivo da memória íntima, com um olhar profundamente sentido. No interior deste livro, há páginas inesquecíveis sobre a vida humana.

No intervalo para almoço na cantina do Planetário do Porto, reparei pela primeira vez na figura presente num painel de azulejos, cuja autoria não consegui identificar. Uma mulher e um fogo. Registei com o telemóvel, a câmera que tinha à mão, e mais tarde editei a imagem, transformando-a.

© Teresa Santos

Pelo caminho encontrei-me também com o verso de Valter Hugo Mãe presente em publicação da mortalidade:

não tenho filhos
tenho mortos

A par destas experiências radiofónicas e literárias, coincidiu estar a ler o livro Manual de Sobrevivência de um Escritor ou o Pouco que Sei sobre Aquilo que Faço de João Tordo. Este manual apareceu num momento em que estava especialmente interessada em conhecer métodos de trabalho de outras pessoas. Trouxe-me a sensação de que o processo de escrita não é necessariamente tão diferente do que pode ser um processo em dança. Trouxe-me alguma paz; a necessária para enfrentar o caos inerente aos inícios.

Depois deste livro, aliando a vontade de continuar a melhorar o catalão e de pensar sobre o fazer poesia, li POÈTICA Construcció d’una lírica de Joan Margarit.

Estes foram os primeiros faróis que chegaram acompanhados de uma certeza chamada dança. De querer voltar ao corpo como veículo principal, sem as limitações inerentes à manipulação de elementos externos a ele. Não que as limitações sejam más, pelo contrário, podem trazer grandes alegrias e ser fonte de inspiração devido às infindáveis possibilidades técnicas e expressivas na relação do corpo com objectos.

Chamo-lhes «faróis» porque escrever se assemelha muito a lançarmo-nos no mar alto numa barcaça, na esperança de chegarmos, são e salvos, a uma margem segura. Mas, como não podemos ver essa margem, o máximo que vislumbramos são algumas luzes que, pelo caminho, na escuridão da noite, nos vão mostrando o sentido da rota.

João Tordo in Manual de Sobrevivência de um Escritor ou o Pouco que Sei sobre Aquilo que Faço

O segundo início foi o dia em que decidi começar este arquivo online de documentação do processo. Nesse dia 22 de Outubro de 2020, durante uma caminhada com o Dídac Gilabert, comentei que era uma pena não ser escritora, porque os escritores certamente aproveitariam melhor estes tempos de clausura. O Dídac sugeriu que podia partilhar de forma digital a minha pesquisa para Ateia. Depois de um momento de hesitação (oposição até), percebi que seria um desafio interessante. Foi assim que surgiu Ateia in Progress, com o objectivo de tornar o processo visível à medida que vou organizando as ideias e desenvolvendo ferramentas para melhor comunicar digitalmente. O processo irá sendo publicado aqui à medida que for acontecendo.

Estes dois momentos são, por agora, os únicos definidos no tempo. É um projecto sem datas marcadas. Demos tempo a Ateia para que possa vir a ser o que já é e que eu/nós ainda vou/vamos descobrir. Imaginação precisa de liberdade e tempo.

Cada vez que um projecto artístico —produção própria ou colaboração— não consegue seguir o seu curso, questiono-me sobre um futuro possível nas Artes. Espectáculos que não circulam, espectáculos cancelados, espectáculos que não chegam a estrear, dificuldade de acesso a espaços de ensaio e de apresentação informais (independentes e descentralizados), pedidos de trabalho grátis e uma longa lista de etc. são, quantas vezes, fontes de esgotamento do vital.

Há um par de anos, desanimada, encontrei inspiração num poema da Teresa Pascual que começa por dizer que os melhores versos estão por escrever. A curiosidade pelo que ainda viria alimentou-me a combustão e daqui veio o nome Poeta de Gandia. A poeta de Gandia é a Teresa que, sem a conhecer, passou a fazer parte do meu imaginário. Quanto a mim, não sou poeta nem nunca estive em Gandia. Este é o meu acto de resistência. Continuo porque não sei viver de outra forma e cada vez que preciso, volto a este lugar que não me atrevo a traduzir:

Els millors versos queden per escriure.
Del temps aqueix moment de recrear-se
en el somriure que t’omple la boca
i en el joc d’abraçar-la amb els meus llavis.

De cada instant el gest, no la paraula,
completa i exhaurida de misteris,
dels ulls atents que ens guaiten, el mirar,
del cos, l’aire trencat en menejar-se.

Després de les frases, després dels mots,
el vel espès que amaga el sentiment,
va descobrint-se a partir de la forma

en què les mans ens parlen i ens recorren,
en què milers de mans diuen el vers
tan difícil de gravar en el full.

Teresa Pascual

Tradução e o poema em valencià pela voz da escritora no link da página lyrikline.org.

Foi estranho e imprevisto para mim começar a documentação do projecto desta forma, contrariando as minhas próprias notas. Talvez tenha sentido a necessidade de escrever este post para que vocês, leitores, percebam o contexto de resistência e vitalidade sobre o qual se constrói Ateia.

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