Escrita

Pequenos satélites do pensamento.

  • Experiência_

    Narrativa

    Data_

    Sobre_

    Texto selecionado na Open-Call de Escrita SLASH FORWARD />> da Mákina de Cena.

    Lau,

    Vou directa ao assunto: gostava de te conhecer. Pergunto-me se encontraste o teu sítio, a tua voz. Assumo-te com vida porque prefiro escrever-te assim. O oposto significaria a impossibilidade de nos encontrarmos no espaço-tempo para o qual me projecto ao escrever esta carta. O oposto significaria a percepção do nosso desaparecimento: dois pássaros num voo perfeitamente sincronizado para a morte. Ultimamente, mais do que nunca, ela é omnipresente. Chegou a nossa vez de vestir a bata e encontrar mecanismos para lidar com o irremediável. O nosso corpo, como tantos outros, está carregado de História. Viver não é imparcial e ninguém passa pela vida sem marcas. A maior parte do tempo, existimos com a mesma fragilidade com que um insecto atravessa a estrada, devagar, com uma dose de fé e outra de ignorância. O ritmo lento aumenta a exposição ao perigo mas também permite apreciar o caminho e desviar obstáculos. É porque somos pequenos que o tempo é grande. Ainda assim, o tamanho das coisas é relativo e subjectivo. O que nos engrandece? Quanto cabe em nós?

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  • Experiência_

    Ensaio

    Data_

    Sobre_

    Texto inspirado na observação do quotidiano durante o processo de criação do espectáculo READY.

    Ilustração_

    Rui Vitorino

    Estar pronto é alongar debaixo dum poste numa noite escura.

    Estar pronto é fazer caras a desconhecidos no colo da avó.

    Estar pronto é levar uma cotovelada, doer e continuar.
    
Estar pronto é vestir um fato que traz com ele um super poder.

    Estar pronto é sorrir na despedida.

    Estar pronto é salvar alguém.
    
Estar pronto é caminhar nas pontas dos pés buscando o equilíbrio enquanto se descobre o mundo.

    Estar pronto é ter lenha para o Inverno.

    Estar pronto é acender um incenso ao ar livre e criar uma atmosfera.

    Estar pronto é ter a bateria montada fora da caixa.
    
Estar pronto é desligar a Internet.

    Estar pronto é fechar a porta da morte ao seu tempo.

    Estar pronto é subir o monte Everest em cuecas.

    Estar pronto é abrir o peito.
    
Estar pronto é conhecer as instruções.

    Estar pronto é ter a palavra na ponta da língua.

    Estar pronto é acordar um minuto antes do despertador.

    Estar pronto é gostar do que se faz.

    Estar pronto é voltar a começar.

  • Experiência_

    Micronarrativa

    Data_

    Sobre_

    Texto para o espectáculo Fase dispersa de Teresa Santos / Grito imagens.

    É na escura iluminação de uma ponte fechada para obras, que me dou conta do vazio. Do espaço antes ocupado por ambos os tabuleiros, resta um nada habitado apenas por ar. Onde antes havia um espaço de encosto e encontro, agora existe uma verticalidade que, no seu paralelismo perfeito, afasta qualquer possibilidade de toque e murmúrio cúmplices. Resta um grito no vazio que se perde na indiferença do ar que apenas separa. 
Até que alguém a arranje ou a gravidade dite as suas regras, já que, por ela, a ponte nada pode fazer, a não ser esperar.

  • Experiência_

    Conto

    Data_

    #prólogo

    Eu tive a grande sorte de conhecer o Sr. Roque.

    #introdução

    Armando Roque não era, de todo, um homem comum. Nas algibeiras trazia espanto e admiração pelas coisas do mundo – qualidades que partilhava com cientistas e poetas, entre outros artistas e artesãos. Para ele era uma atitude normal, considerando a complexidade e beleza do mundo que habitamos.

    Após terminar os seus estudos, Armando Roque trabalhou por breves mas arrastados meses numa fábrica têxtil. Mas o mundo não lhe cabia num punhado de moedas e decidiu trocar as horas desperdiçadas

    (sim, desperdiçadas, até porque ele preferia a nudez às modas relâmpago…)

    por horas de intermináveis aventuras a viajar pelo mundo.

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  • Experiência_

    Ensaio

    Data_

    Sobre_

    Texto escrito a partir da performance You Who Will In No Other Way de circumstance no Serralves em Festa.

    Fotografia_

    Duncan Speakman

    Who is the one in front? Can she see me? What happens if she does? Can she possibly be (in) my future? At what distance is future? Will I ever change? Why should I wish another version of me in the future? What’s wrong with the present? In the future, will I walk carefully like if every ground was sacred? Why don’t these petals seem to grow old or die? Am I like them? Is my mind like this blur glass? Is my presence changing anything in this room? What does my past want from me? I feel it’s presence in my back. Can I reach the future? Do I love my past, my present and my future? Do they even exist? How far away are them? How far away is my love? I’m suspicious about my future, what happens if I don’t look? Should I warn my past about my future? Will it make any difference? My future is like this white wall. I see a good future, but what about the path? Should I keep going, should I change? What’s the way to meet my future? Is it in sharp straight lines or in nice round curves? You in the mirror. You are welcome. I remember. Now I’m in a room without time references where the only things that exist are the marks of my presence. I feel presences passing and whispering. We connect through sounds. What is this sound? Does it hit or embrace? It makes me go on. What do they have to do with my future? What do these trees and clouds and birds and walls and lights have to do with my future? Who do I choose to be? What is important? What is life? What is death? What does me being here have to do with life and death? What does anything have to do with life and death? Is there any mystery? Are there any encounters while I’m here? Is there hope? How much pain should I still expect? How much joy? Do I really want to know my future? What is the time for invisible things? Past, present or future?