Teresa Santos

Oscilante

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Carta para o Eu de amanhã. Texto selecionado na Open-Call de Escrita SLASH FORWARD />> da Mákina de Cena.

Lau,

Vou directa ao assunto: gostava de te conhecer. Pergunto-me se encontraste o teu sítio, a tua voz. Assumo-te com vida porque prefiro escrever-te assim. O oposto significaria a impossibilidade de nos encontrarmos no espaço-tempo para o qual me projecto ao escrever esta carta. O oposto significaria a percepção do nosso desaparecimento: dois pássaros num voo perfeitamente sincronizado para a morte. Ultimamente, mais do que nunca, ela é omnipresente. Chegou a nossa vez de vestir a bata e encontrar mecanismos para lidar com o irremediável. O nosso corpo, como tantos outros, está carregado de História. Viver não é imparcial e ninguém passa pela vida sem marcas. A maior parte do tempo, existimos com a mesma fragilidade com que um insecto atravessa a estrada, devagar, com uma dose de fé e outra de ignorância. O ritmo lento aumenta a exposição ao perigo mas também permite apreciar o caminho e desviar obstáculos. É porque somos pequenos que o tempo é grande. Ainda assim, o tamanho das coisas é relativo e subjectivo. O que nos engrandece? Quanto cabe em nós?

Lembra-te de ser parte activa. Constrói afectos com alicerces no tempo. Vibra. Tropeça de excitação no teu próprio entusiasmo. Desenha caminhos para a liberdade. Remói tudo o que ainda houver para remoer. Rompe a couraça. Convida a entrar com a porta escancarada. Aguça a curiosidade e o engenho. Conhece de onde vens.

As palavras de ordem são matéria do presente, não do futuro. As frases do futuro são interrogativas. É certo que conheço parte de ti, sei o que nos escapou dos braços arrastando consigo a pele. Conheço-nos do avesso, mas não conheço muitas das pedras que já calcaste. O passado e o presente são nossos, mas o futuro é teu. A minha mão desenha no branco, esse grande desconhecido, à procura de repostas. O tempo é uma sucessão de desconhecidos que se vão transformando naquilo que conhecemos. Tudo passa. No fim, tudo passa? Lembras-te do mês quatro do ano vinte?

Invisível, o manto cai nas horas e, tropeçando, tentamos erguer na sua dignidade o caminho turvo. As horas também caem, extraordinárias, com aroma a excepção, lentidão e dever. As ruas, desconfiadas, cheiram a um inimigo invisível, mas não imaginário, que veio para ficar. Porque gostas deves ficar longe. O manto, esse cabrão, invadiu mundos anti-sépticos, levou cheiros e tudo ficou a saber a nada.

Onde é que tudo isto nos deixou? Quis sair quando tudo dizia para ficar. Mas não. Adiei-me. Morri um pouco. Querer é uma linha recta bem afiada, sem espaço para desvios no caminho. Querer é uma invasão, é um foguetão disparado em direcção a Marte. Sorte do corpo, de voltar ao corpo. Alongo a coluna vértebra por vértebra e abro os seus milhares de olhos. Agora, entra com a brisa um aroma floral que inunda suavemente as minhas narinas. O silêncio instala-se.

Imagina um lugar onde o azul do céu é tão escuro que são ainda mais belas as luzes da noite. Imagina um rio que convida a entrar. Imagina a possibilidade de percorrer uma vastidão de terra. Imagina a leveza. Foi isto que imaginaste para nós? É possível ter saudades do que ainda não vivi? O futuro é como os sonhos, uma imagem esfumada que se vai revelando e vai ajustando continuamente a nossa compreensão, sem que para nós seja um trabalho. O único trabalho é o da memória, a mesma memória que nos permite não cair duas vezes no mesmo buraco. O futuro é o sonho que entendo mesmo quando não tem sentido.

Suspiro e piro. Suspiro e não piro, paro. Queria passar mas a porta estava aberta. Sair da realidade era possível. Suspeito e suspiro. Sujeito-me à porta. Suspiro e piro porque não vejo a porta. A realidade é dura e perdura. Piro-me sem suspeitar, suspiro só para depois encher de ar, e com o ar a coragem, e com a coragem a entrada — ou saída. Sustenho e respiro. A mão subversiva pira e larga a porta. Faço o que posso e suspiro, resignadamente. Quase. Fico e não piro. Abro os ouvidos ao som de uma porta, uma porta arranjada não soa. Pateia tu com força. Espero um susto e suspiro. Não me assusto e já me quero pirar. Vejo saída mas não entrada — são precisas as duas. Pateias com força e assustas-te com o som que se antecipa aos teus ouvidos. Não sabes se deves patear, a dúvida sustenta o teu pensamento. Paras mas desta vez não piras, sentas. Em frente ou atrás da porta, és a imagem viva da indecisão paralisante. Não deve funcionar porque não ouço. Fico com a mão suspensa, a suspeitar da minha própria incapacidade. Suspeito que os suspiros suscitam imaginação.

Quantas vezes quisemos passar mas a porta estava aberta? Quantas vezes dissemos amplo quando queríamos dizer vazio? Quantas vezes vivemos beleza e precariedade como faces da mesma moeda? Quantas vezes nos dispersamos até quase deixar de saber quem somos? Quantas vezes o nosso querer mexeu na dignidade do outro? Quantas vezes estivemos à distância de um pensamento?

Por vezes, olho à minha volta e, num momento de lucidez, vejo a imperfeição das coisas. Sossega-me pensar que nem tudo depende de mim. Há coisas que não dependem de mim. Depende de mim apreciar a luz do amanhecer. Depende de mim criar momentos só meus. Depende de mim seguir o fio dos meus pensamentos. Mas há coisas que não dependem apenas de mim. As palavras, por exemplo, não têm ordem, saem descontroladas e sem hora marcada, não respeitam horários — nem laboral, nem lúdico. Mas quando brotam, sinto-me existir através delas. Sem vida não há escrita e não basta escapar à morte para viver, pois não?

Oscilo entre a incerteza do que foi, do que é e do que será. Debruço-me sobre a luz e a sombra do mistério e tento aceitar o equívoco como parte de algo que não compreendo, mas que desejo trazer à consciência. Eventualmente, as vozes serão ouvidas? Para além das vozes na rua, ouço dentro um grito incessante: MAIS AMOR. Será a tua voz? Sinto inquietação. Para onde nos dirigimos como colectivo? Qual o lugar do efémero? De construir algo juntos? Da transgressão? Da profundidade? Estamos menos sós? Conhecemos mais de onde vimos? Oscilo entre a beleza da impermanência e a crença de que certas coisas permanecerão. Oscilo entre o conforto e a necessidade de me imiscuir no mundo. Paz ou mundo. Para quando a utopia?

Não tenho medo. Sei que não estamos sós, a nossa tribo é grande e acompanha-a a presença de todos os que contribuíram para a nossa história. Guardo comigo Crisóstomo, Lúcia, Daniel, Einar, Halla, Cecília, Matias, Elias, Manuel e tantos, tantos outros que deixam saudade. Com ela, mergulhei nas águas mais profundas para depois voltar à tona e respirar. Longa vida ao espanto pelas coisas do mundo.

Desculpa se me alonguei. Lavrei o texto e agora despeço-me.

A ti, leitora improvável, obrigada e até breve — com uma dose de fé e outra de ignorância.

Lau
30 de Junho de 2021

P.S. — Quero sentir a vida a correr-me nos gestos e desejo o mesmo para ti.

Teresa Santos
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