Notas da miragem.
TALVEZ
Talvez tudo tenha começado antes de eu saber.
TRENCELTA
Tenho palavras a palpitar e as mãos ocupadas a fotografar. Guardo-as para mais tarde, a carroça não deve ir à frente dos bois. Movimento leva ao movimento. Sujar as mãos é movimento, adentrar-se na natureza é movimento, partilhar uma refeição é movimento, resistir é movimento, improvisar ao som de um álbum é movimento, viajar é movimento. O comboio avança ao ritmo de perna de pau enquanto grita a sua presença numa só nota.
O sol, ainda dourado, banha a carruagem e os reflexos confundem-se com a realidade, imiscuindo-se. Atrás de mim, uma família discute a nacionalidade do comboio, perturbando o sossego da manhã com a sua teimosia e impaciência. Viajar de comboio permite uma observação atenta da paisagem, como quando se caminha, com as mãos e a mente livres, ideal para fotografar. Se por um lado a velocidade dificulta o foco, por outro revela mais em menos tempo. Num ápice, rural e industrial atravessam-se numa simbiose imperfeita. Por segundos, o olhar indiscreto pousa em lugares inacessíveis à vista de um qualquer andarilho.
No momento de mostrar o papel, um leve nervosismo injustificado traz à superfície uma amabilidade exagerada na saudação, no agradecimento e na despedida. Encontro a mensagem 20 ♡ gravada a caneta no banco que ocupo. Quem sabe a declaração de um amor transfronteiriço. Depois desta estação começa Espanha, diz o pai da família em Valença. Que bonita é a Galiza, penso eu. Surpreende-me que os países se tenham posto de acordo para que um comboio possa circular entre os dois sem grandes artifícios. Nem sempre o óbvio é tão óbvio assim. O comboio chega com atraso, mas não tenho pressa.
Nota mental: comprar uma mala com rodas.
PORTA DO SOL
Talvez é um bom ponto de partida. Ponto incerto, saturado de possibilidade. O universo não opera com a imediatez. Compreender o ritmo das coisas pode atenuar o sofrimento. Deixo-me levar pela corrente, continuo sem pressa.
Há beleza em ter tempo para parar em qualquer Porta do Sol, fechar os olhos e deixar a luz entrar. Para lá chegar, sem saber ainda onde chegarei, passo pela República Argentina, Portugal, Farola de Urzáiz e Rúa do Príncipe, a Rua de Santa Catarina de Vigo. Ao estabelecer a comparação apercebo-me de como o ambiente está calmo e silencioso. Atraída pelo sol de Janeiro, sento-me na praça e abro o livro. Cheguei ao destino. Sinto-me em casa. Pergunto-me se os transeuntes adivinham que não sou daqui. Gosto de ouvir as vozes à minha volta, reconforta-me saber que estão.
Em Lições da Miragem, descubro um pouco de mim. Para mim, o livro é um encontro com o escritor, com o texto e comigo. Não ouço ninguém falar galego e fico triste. Triste pola lingua e pola súa xente.
Nota mental: arranjar um lápis.
CARBALLO
Desde o bar vê-se o mundo. Fico e observo, envolvida pelo burburinho resultante da amálgama de música, vozes e talheres. O vidro como um fino elemento que me une à realidade, desta vez sem reflexos. A vida passa como um espelho, sujeita a diferentes formas de interpretação. Até a morte por aqui passa. Recolho antes de anoitecer e também eu sou vida fora de um bar qualquer.
No quarto acompanho-me da Lídia Jorge enquanto preparo o dia seguinte, mais uma viagem. Fala da idade e de como ao envelhecer, ao contrário do que se pensa, o corpo e as emoções tendem a expandir na sua intensidade. Talvez cada dia seja sentido com muita força como a última oportunidade de o viver. Pergunto-me se isto é algo que se possa sentir aos quarenta.
Nota mental: que curioso isto do tempo e do espaço…
NEVE
Ao sair do hotel, vejo que a noite foi de festa. O comboio parte pontual. Hoje parece que o sol se esqueceu de sair. Finalmente a luz. O sol irrompe por trás das montanhas e as nuvens dissipam-se. A neve, primeiro ao longe. Em Villagatón vejo como a neve e água no estado líquido coexistem à distância de um passo.
Alguém liga a televisão, ignorando a existência de ecrãs pessoais e a quase inexistência de auriculares com cabo. Sorte a minha. Imaginar é como viajar, as ideias articulam-se num movimento muito próprio. Escuto a banda sonora da Triologia das Cores. Há uma precisão na música que é difícil conseguir na dança. Adolescentes posam desajeitadamente para uma fotografia que imagino de despedida. Já não sei se rir ou ficar desconfortável cada vez que a ouço. Uma voz feminina faz referência às instruções em caso de emergência com um silêncio demasiado longo entre as frases, tornando o eventual cenário ainda pior, mais arrepiante.
Nota mental: preciso de me mexer.
POEMA
Pergunto-me como se sabe quando é que um texto está acabado.
Nota mental: escrever o poema atravessado.
Tudo miragem
Cá onde o sol não tem pressa
e os passos são nossos,
entrego-me ao peso do corpo.
Subimos ao topo,
ar rarefeito coração feito,
a partir daqui tudo é pós, tudo miragem.
Se por sorte o caminho é longo,
o vento amaina pedras e dores
e a vida segue a reboque.
Sentada no cimo do tempo,
sem mais caminho a percorrer,
aqui fiquei, imersa no que vivi.