59d

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No dia 24 de Dezembro de 2019 comecei a captar em vídeo pedaços de quotidiano. Decidi fazê-lo durante 59 dias (59 à semelhança do projecto no YouTube 59s), editar e publicar.
Sem os factores tempo e intenção, esta poderia ser uma interpretação instantânea da realidade, tanto pela escolha do meio utilizado para gravar – o telemóvel – como pelo tipo de registo em si.

Nesse mesmo mês de Dezembro já tinha realizado algumas filmagens com o telemóvel para documentar momentos informais da passagem pela La Cascade em residência artística. Pareceu-me que, tecnicamente, não só era possível desenvolver um projecto com o telemóvel como este ainda trazia vantagens acrescidas: 4k, estabilizador, microfone e, sobretudo, imediatez (apontar e gravar) e discrição (que vem com a banalização do objecto e do gesto). Durante estes 59 dias a câmera reflex teve um descanso merecido, já que a minha motivação para produzir imagens estava orientada para este projecto.

Sem serem muito reveladoras do meu corpo, estas imagens são talvez as mais íntimas que publiquei, já que revelam parte do meu mundo: olhar, lugares, pessoas, estados de ânimo, paisagens, aspirações. Podem encontrar-se ainda outros vestígios que denunciam a minha presença, tais como: passos, cabelos e sombras.
O que me chama a atenção e porquê? Como vejo? Mais tarde pude observar a existência de temas recorrentes e as diferentes formas como se foram manifestando.
A luz, os sons, as cores, as texturas e as formas assumem uma grande relevância neste documentário sendo os verdadeiros protagonistas, a par dos eventos. Por vezes aconteceu olhar desde uma perspectiva pessoal eventos experimentados colectivamente.

Outro dos pressupostos deste projecto passava por gravar apenas quando algo realmente o pedia, sem a obrigação de fazer registos diários ou semanais. Estes eram momentos de abertura, de sair para o mundo e ser tocada por ele, que não podem ser forçados (apesar de poderem ser cultivados). Também houve momentos em que a experiência era mais importante do que filmar e tornou-se importante a capacidade de distinguir os dois, assim como a consciência do que faço para mim e do que faço para os outros. Nenhum momento foi encenado, houve uma aceitação da realidade tal como esta se apresentava. Andar é a principal acção presente ao longo do filme, transportando para a ideia de movimento, continuidade e passagem do tempo (que também aparece com o dia e a noite, o sol e a chuva).

As imagens foram organizadas por ordem cronológica e sem qualquer tipo de filtro. O principal trabalho de edição prendeu-se com a seleção dos momentos registados e a sua duração, que ditava o ritmo do filme. Os momentos de ausência de som funcionam como janelas para abrir espaços, transportando para o interior, para os ruídos que estão presentes no espaço do espectador ou para a sua própria respiração. À medida que ia colocando os ficheiros por ordem, ia crescendo em mim uma curiosidade inevitável de saber o que se seguiria, como se estivesse a desenhar o meu destino, ainda que com minutos ou dias de atraso.
No final, apercebo-me dos principais temas presentes: natureza, industrialização, transformação, solidão, grupo, viagens e culturas. Este documentário é um reflexo do que foi a minha vida neste período de tempo, que, sem a documentar, teria sido exactamente a mesma, mas talvez não exactamente a mesma…

Parte de mim acredita que sempre lembrarei estes pedaços de quotidiano que guardei nos últimos meses, quem estava comigo e como me sentia. Obrigada a todos os que pacientemente partilharam comigo estes momentos. Obrigada também a todos os que viram o documentário e leram este texto, construindo as suas próprias conclusões.

Quanto a mim, estou de volta à fotografia e à minha câmera reflex. As obras continuam.

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