#prólogo
Eu tive a grande sorte de conhecer o Sr. Roque.

#introdução
Armando Roque não era, de todo, um homem comum. Nas algibeiras trazia espanto e admiração pelas coisas do mundo – qualidades que partilhava com cientistas e poetas, entre outros artistas e artesãos. Para ele era uma atitude normal, considerando a complexidade e beleza do mundo que habitamos.
Após terminar os seus estudos, Armando Roque trabalhou por breves mas arrastados meses numa fábrica têxtil. Mas o mundo não lhe cabia num punhado de moedas e decidiu trocar as horas desperdiçadas

(sim, desperdiçadas, até porque ele preferia a nudez às modas relâmpago…)

por horas de intermináveis aventuras a viajar pelo mundo.

#viagem
A viagem em si foi o seu sustento nesses tempos imprevistos. Os eventos, que se sobrepunham a uma velocidade estonteante, aguçavam-lhe a curiosidade e saciavam a sua sede de viver.
Vivia do que lhe davam e nada lhe faltava. Baseava os seus dias na contemplação e na partilha de momentos e palavras que o contagiavam e contagiavam também aqueles que o rodeavam, numa espiral sem fim. Armando Roque, imbuído deste amor desinteressado, era um homem feliz.

#de volta
Um dia, passado muito tempo, decidiu voltar à sua cidade. Instalou-se num cubículo rodeado de outros cubículos iguais ao seu, tal como estava na moda entre as pessoas da sua idade.
Para descansar das suas viagens foi ocupando o tempo livre

(ou seja, todo o seu tempo…)

a repousar no sofá que viera incluído no cubículo.
Passou meses sem ver o horizonte, e, confinada num espaço tão pequeno, a sua mente foi ficando estranhamente tacanha e, por consequência, também o seu mundo e o seu espanto diminuíram, passando a ter o tamanho de um cubículo. Então, foi-se conformando. Uma mente estreita num corpo preguiçoso começou a dar aso a novas ideias

(sim, porque a fonte desta matéria volátil, essa, não cessava…)

que foram ganhando forma e crescendo, cResCeENdO, CRESCENDO, até ocuparem todo o seu ser, que tinha agora ainda menos espaço para existir.

(quanto mais para ser feliz…)

Armando Roque pensava, sem se mexer: que bom seria acender as luzes com uma palma, agora que começa a anoitecer; que bom seria ter uma máquina que preparasse a minha comida, agora que o meu estômago começa a dar sinais de fome; que bom seria não ter que lavar a roupa, agora que o seu cheiro passou de tolerável a insuportável;

(e por último…)

que bom seria ter sucesso e concretizar todas estas ideias.
E foi assim que, mais uma vez, Armando Roque encontrou um motor na sua vida. Logo que acabou de amadurecer bem estas ideias, levantou-se do seu sofá

(que também já começava a ser desconfortável…)

e foi bater às portas dos cubículos vizinhos. Até à data desconhecia os seus habitantes, à parte de um ou outro ruído que identificava como sendo do da esquerda, do da direita, do de cima e do de baixo.
Às portas que se abriram falou-lhes desde o alto da sua eloquência e, talvez por isso mesmo, chegou à conclusão que todos os habitantes dos cubículos vizinhos pensavam como ele. Que coincidência, pensou.
Decidiu então alargar a sua pesquisa e descobriu que todos os habitantes de cubículos da sua cidade pensavam da mesma forma. E mais, muitos estavam interessados em investir

(com dinheiro, claro, porque de tempo não dispunham…)

numa fábrica capaz de concretizar todas estas invenções que mudariam a sua vida e a vida da sua cidade. Então, uma vez que Armando Roque tinha as ideias e os meios para concretizá-las, foi em frente: abriu uma fábrica de ideias pré-concebidas.

(tudo por amor ao conforto da vida moderna…)

Ele acreditava plenamente na sua nova causa e sentia-se um revolucionário. O mundo que tanto admirara seria diferente por sua causa.

(diferente… para melhor? assim que este pensamento pairou pela primeira vez na sua mente esquivou-se, decidiu não lhe atribuir a menor importância e fechou parênteses)

 

#investimento
Nos meses seguintes dedicou-se à construção das estruturas físicas necessárias para o funcionamento da fábrica para, depois, se dedicar à parte mais delicada – a contratação dos seus funcionários. Armando Roque lembrava-se do seu tempo de operário fabril: os escassos direitos, os despedimentos fáceis devido a transgressões menores, os horários rígidos e a dureza das tarefas repetitivas. Pensou que se na altura o faziam assim, era porque esta seria a melhor forma de o fazer.

(a única forma possível…)

Armando Roque, nessa altura, não se apercebia que o comandava uma mente estreita e perversa, criada durante meses no sofá de um cubículo minúsculo.
Assim que foram aparecendo os potenciais trabalhadores, foram sendo submetidos a critérios rigorosos que teriam que cumprir para poder pertencer a esta promissora máquina de fazer dinheiro: deveriam ser todos parecidos – quase iguais – entre si, ter as medidas ideais definidas pelo uniforme da fábrica, gostar de obedecer e, acima de tudo, não questionar nada nem ter ideias próprias e diferentes.

(naqueles tempos, a palavra diferente causava-lhe arrepios…)

Assim, com grandes ideias, necessidade de afirmação no mercado e trabalhadores infelizes, o movimento na fábrica avançou a todo gás.
Armando Roque foi rapidamente considerado um génio e todos os habitantes dos cubículos aderiram em massa ao último grito da moda da comodidade.

 

#cansaço
Armando Roque trabalhou quatro anos a fio, sem nunca parar.

(quanto tempo desperdiçado…)

As suas viagens pelo mundo hibernavam agora, estagnadas, num pequeno espaço do seu cérebro para elas reservado. Um cansaço percorria a ritmo lento todo o seu corpo já esgotado. A mente, dificilmente elaborava novas ideias.
Um dia, o médico disse a Armando Roque: tens de parar agora e, se não paras, a vida parará por ti. Mesmo sem entender completamente o que queria dizer o seu médico, decidiu começar a parar. Não devia ser tão difícil, se os outros o faziam… Pelo menos aos fins de semana ausentar-se-ia da fábrica e tentaria descansar.
No entanto, desde esse dia, cada vez que se aproximava o último e fatídico dia da semana, Armando Roque começava a sentir-se ansioso por não saber o que fazer. Qual era o significado do tempo livre? Para que servia? Tinha uma memória reminescente de valorizar estes tempos, mas agora… Então ficava parado, sem se mexer. Apenas não congelava por causa do sol que irradiava lá fora, surpreendentemente quente para a época do ano. Já nem fenómenos como as alterações climáticas lhe provocavam espanto. Na verdade, não precisava de se mexer, tinha consigo as suas invenções, maquinaria que realizava por ele todas as tarefas que, normalmente, seriam as suas. E quando chegava o dia de ir trabalhar munia-se de toda a energia que conseguia

(porque tinha de ser…)

e lá ia com o seu sobretudo cinzento adequado à época do ano mas tão pouco adequado ao sol que brilhava intensamente à frente dos seus olhos e o incomodava.
O tempo chegou em que sofria de momentos de imobilidade também na fábrica. Simplesmente parava… Abandonava discursos, deixava refeições a meio, parava a caminho do quarto de banho e não concluía os desenhos das novas invenções – sem estes a fábrica não podia continuar a desenvolver-se ao ritmo que lhe era exigido, também ela estagnando. Um dia, os seus trabalhadores que, apesar de tudo, o respeitavam, levaram-no de volta ao seu cubículo depois de já passada uma hora do turno final. A Armando Roque faltavam-lhe forças para lhes agradecer ou até sentir-se agradecido.

(estava vazio…)

 

#mudança
Pela primeira vez sentiu o que era um vazio total e absoluto e ficou-se na imobilidade. Passaram-se dias, semanas sem que ninguém o conseguisse tirar daquele espaço.
Até que um dia, ao observar pela janela o movimento de um pai que brincava com o filho pequeno, uma ponta de comoção o invadiu. O cuidar, o toque, o afecto… Essa comoção desencadeou o processo fisiológico de produção de uma lágrima que sentiu rolar devagar na sua pele. E foi o suficiente…
Armando Roque levantou-se num ápice e toda a energia que se estagnara nele durante todo este tempo voltou. Mexeu o seu corpo freneticamente durante longos minutos. E gritou, para si, para as suas máquinas e para quem mais o ouvisse. Reclamou a sua vida, as suas ideias, os seus sonhos, a sua gratidão, a sua liberdade…
Não havia respostas e coisas de todo o tipo voavam pelo ar sem intenção de fazer mal, apenas por uma necessidade irreprimível de compreender. Nestes momentos lágrimas atropelavam-se no seu corpo, sem qualquer consideração pelo que quer que fosse.
Armando Roque saiu do seu cubículo e começou a correr. Correu durante dois dias e sete horas, visitou monumentos e vegetação que desconhecia, até que secaram todas as lágrimas. Parou junto a uma árvore, grato pela sua sombra.

(grato, pela primeira vez em muito tempo…)

Observou como os seus pensamentos voltavam a fluir novamente. Pensou nos seus pais. Com o movimento do corpo, tinha conseguido mover o coração e a mente. Precisava disto, de invocar o seu corpo, de confiar nele. Quando se acomodou deixou de estar vivo, presente e capaz.

 

#conclusão
A partir desse momento passou a depender apenas das suas pernas para o transportarem, passou a comer o que lhe oferecia o reino vegetal e o que ele próprio preparava. Também começou a lavar a sua roupa no único tanque comunitário da cidade, curiosamente um lugar feminino, onde sobretudo conversavam, riam e cantavam. Tudo isto fez reacender em si uma luz que chegara a acreditar estar completamente extinta.
Uma nova revolução teria início na sua vida e na fábrica de ideias. Enquanto novas revoluções fossem necessárias de tempos a tempos, seria jovem…

 

#epílogo
Esta é a minha grande sorte, a sorte de ter sido acolhida pelo Sr. Roque no momento em que mais precisava.