É na escura iluminação de uma ponte fechada para obras, que me dou conta do vazio. Do espaço antes ocupado por ambos os tabuleiros, resta um nada habitado apenas por ar. Onde antes havia um espaço de encosto e encontro, agora existe uma verticalidade que, no seu paralelismo perfeito, afasta qualquer possibilidade de toque e de murmúrios cúmplices. Resta um grito no vazio que se perde na indiferença do ar que apenas separa.
Até que alguém a arranje ou a gravidade dite as suas regras, já que, por ela, a ponte nada pode fazer, a não ser esperar.

(In Fase dispersa de Teresa Santos, 2018)