Oscilante (excerto)

Lau,

Vou directa ao assunto: gostava de te conhecer. Pergunto-me se encontraste o teu sítio, a tua voz. Assumo-te com vida porque prefiro escrever-te assim. O oposto significaria a impossibilidade de nos encontrarmos no espaço-tempo para o qual me projecto ao escrever esta carta. O oposto significaria a percepção do nosso desaparecimento: dois pássaros num voo perfeitamente sincronizado para a morte. Ultimamente, mais do que nunca, ela é omnipresente. Chegou a nossa vez de vestir a bata e encontrar mecanismos para lidar com o irremediável. O nosso corpo, como tantos outros, está carregado de História. Viver não é imparcial e ninguém passa pela vida sem marcas. A maior parte do tempo, existimos com a mesma fragilidade com que um insecto atravessa a estrada, devagar, com uma dose de fé e outra de ignorância. O ritmo lento aumenta a exposição ao perigo mas também permite apreciar o caminho e desviar obstáculos. É porque somos seres pequenos que o tempo é grande. Ainda assim, o tamanho das coisas é relativo e subjectivo. O que engrandece a pequenez? Quanto cabe em nós?

Lembra-te de ser parte activa. Constrói afectos com alicerces no tempo. Vibra. Tropeça de excitação no teu próprio entusiasmo. Desenha caminhos para a liberdade. Remói tudo o que ainda houver para remoer. Rompe a couraça. Convida a entrar com a porta escancarada. Aguça a curiosidade e o engenho. Conhece de onde vens.

As palavras de ordem são matéria do presente, não do futuro. As frases do futuro são interrogativas. É certo que conheço parte de ti, sei o que nos escapou dos braços arrastando consigo a pele. Conheço-nos do avesso, mas não conheço muitas das pedras que já calcaste. O passado e o presente são nossos, mas o futuro é teu. A minha mão desenha no branco, esse grande desconhecido, à procura de repostas. O tempo é, também ele, uma sucessão de desconhecidos que se vão transformando naquilo que conhecemos. Tudo passa. No fim, tudo passa? Lembras-te do mês quatro do ano vinte?

Invisível, o manto cai nas horas e, tropeçando, tentamos erguer na sua dignidade o caminho turvo. As horas também caem, extraordinárias, com aroma a excepção, lentidão e dever. As ruas, desconfiadas, cheiram a um inimigo invisível, mas não imaginário, que veio para ficar. Porque gostas deves ficar longe. O manto, esse cabrão, invadiu mundos anti-sépticos, levou cheiros e tudo ficou a saber a nada.

Onde é que tudo isto nos deixou? Quis sair quando tudo dizia para ficar. Mas não. Adiei-me. Morri um pouco. Querer é uma linha recta bem afiada sem espaço para desvios no caminho. Querer é uma invasão, é um foguetão disparado em direcção a Marte. Sorte do corpo, de voltar ao corpo. Alongar a coluna vértebra por vértebra e abrir os milhares de olhos que vêem para lá das marcas que nos moldam. Agora, entra com a brisa um aroma floral que inunda suavemente as minhas narinas. O silêncio instala-se.

(…)

Teresa Santos